Ferreira Gullar: uma poética do sujo

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Nankin Editorial, 2006 - Brazilian poetry - 93 pages
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A poesia lírica formou-se por meio de uma escolha que supunha dignos da poesia os materiais e as linguagens considerados elevados. Na poesia lírica como na epopéia, surgiu o chamado discurso alto, reservando-se para a comédia e a sátira os materiais e as linguagens plebeus, o discurso baixo. Assim constituiu-se a tradição clássica, que permaneceu até a época do Romantismo (início do século XIX), quando os preceitos daquela tradição foram rompidos e a poesia lírica passou a expressar a medida da 'inspiração' do indivíduo-poeta. Na modernidade, todos os cânones, em maior ou menor medida, foram postos em xeque, todos os modelos e valores foram questionados, as formas poéticas, os gêneros da prosa e a própria literatura passaram a ser pensados e discutidos em sua natureza e condição históricas. Aí ingressaram na discussão dois elementos fundamentais - o mercado das artes e as possibilidades de representação do mundo e do homem. Este livro de Tito Damazo, centrado na análise e interpretação do 'Poema sujo', de Ferreira Gullar, leva em conta a ruptura fundamental implicada por esse poema na tradição da literatura brasileira. Para isso, Tito Damazo fundamenta uma poética do sujo através de subsídios teóricos que permitem uma abordagem pioneira, que integra os elementos híbridos do discurso alto e baixo e de como os materiais danificados do mundo constituem uma relação tensa e contraditória da poesia e do poeta com a história moderna e com a história do Brasil no período da ditadura militar. Assim, este livro ilumina para o leitor um dos momentos mais altos da poesia contemporânea do país, em tudo o que ela significa de revelação das contradições e da dialética de forma e conteúdo, permitindo entrever que a grande poesia pode (e deve) dizer do mundo, da história e dos homens, sem ser panfletária, conquanto incorporando todos os materiais da linguagem que fazem do discurso baixo um discurso alto e vice-versa, realizando-se plenamente numa modernidade, que, na periferia do capitalismo, pouco ou nada, merece o nome que tem.

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