O BRASIL FRANCES

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Civilização Brasileira, Jan 1, 2007 - French - 358 pages
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Em 'O Brasil Francês' , Andrea Daher analisa as características da missão francesa no Brasil - que buscava a cristianização e a ocidentalização dos selvagens -, a partir de um estudo da colônia do Maranhão. A autora compara os discursos dos capuchinhos franceses com os dos jesuítas portugueses e reflete com sutileza sobre os diferentes olhares desses colonizadores. Este é um livro raro, inteligentíssimo e delicioso de ler. Tratando de projetos europeus de colonização do Brasil e do Maranhão nos séculos XVI e XVII, Andrea Daher observa franceses par deçà, na Europa, e Tupinambá par delà, na América. Perspicaz, versátil, treinada pela antropologia, pela historiografia e pela literatura, sua escrita extrai relações inesperadas de resíduos de arquivos, desnaturalizando o senso comum acumulado sobre eles. Situando-se entre, no espaço do atrito quase sempre violentíssimo das culturas, traça linhas de fuga que ora se cruzam, ora se afastam, sem dar razão a nenhuma das partes que deslizam nelas; na companhia do muito amável Jean de Léry, sua escrita é um devir francês huguenote, na França Antártica da Guanabara do século XVI; nos matos do Rio, do Maranhão e no corpo daqueles seis Tupinambá que foram espantar a corte francesa em Rouen, é um devir bugre das baixas latitudes; na França Equinocial, no Maranhão do século XVII, com os não menos excelentes capuchinhos Claude d'Abbeville e Yves d'Évreux, é um devir francês católico. E, não podia faltar, com o prático Nóbrega e o duro Gândavo, um devir português. O que demonstra a autora nesses devires? Antes de tudo, que a história é destruição. De um lado, o projeto 'mair' francês, semelhante ao projeto 'peró', português, de ocupar militar e economicamente o território, tenta converter os selvagens à Letra do Deus cristão estilhaçada pelas guerras religiosas. Pressupondo a posse exclusiva da verdade, as interpretações francesas e portuguesas produzem naturezas diversas para o índio. No século XVI, enquanto 'mair huguenotes' e 'peró' católicos se matam o mais que podem, vão tatuando nos corpos gentios as verdades hierárquicas da sua religião revelada. Os Tupinambá respondem como sabem ou como podem; fazem guerras, vingam-se, matam e comem 'peró', afirmam quase sempre evitar o 'moquém de mair', entregam-se, fogem, morrem. No século XVII, a destruição continua - agora mair católicos disputam a ilha do Maranhão com 'peró' católicos e os Tupinambá vão sendo assassinados por todos os lados. Ou viram escravos. Às vezes, objeto da curiosidade, avó ou mãe da etnografia, são levados para a Europa, onde são batizados, dançam para reis, morrem e viram peças de museu. Não há nenhuma moral da história na história que Andrea escreve. E quem tem a palavra, em vários sentidos no final, é o chefe índio Mororé Guassu, que espera o leitor para a bucanagem e o cauim deste livro saborosíssimo.

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