O mulo: romance

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Editora Nova Fronteira, 1981 - Brazilian fiction - 517 pages
'O Mulo' se sabe e se crê estéril e ele, de si para si, achou justo. Mas o estéril Mulo é Philogônico, o que ama a geração. Num jogo angustioso de pólos e contínuos, repassando tudo ante a esperança de uma Salvação na Eternidade, esse nem herói nem anti-herói tangencia, inevitavelmente, ou com ela se funde, a dimensão pícara ou sarcástica ou cômica - com a magia verbal que isso impõe.

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DARCY RIBEIRO, na obra O MULO nos revela a máxima intimidade de um brasileiro que somente um antropólogo como Darcy poderia conhecer. É a história de um errante que chega na velhice e coloca os seus pensamentos no papel. Quem foi ele mesmo? Uma sucessão dele mesmo. E nas páginas 105 e depois 189 novamente, e 321 e seguintes, ele tenta se decifrar: seria ele o Trem filho da Teresa? Ou o capiau das Cagaitas, menino Terezo, que comete seu primeiro crime? Ou o carregador de penico do presídio do Grãomogol? Ou, o soldado Terêncio Bogéa, condenado a dureza do major? Ou o tropeiro e muleiro Filó? Ou o abridor do vão? Ou ainda, o marido de siá Mia? Ou finalmente o Coronel Philogônio de Castro Maya, senhor dos Laranjos? Sim, este é o velho doente que escreve suas memórias. Todo reflexivo, vejamos este trecho especial da página 185: “Essa vida é na verdade uma penca de novelos. Não. Para ser exato, uma penca de bilros é o que a vida é. O rendeiro é Deus. Lá de cima, sem hora, espetando os alfinetes nos moldes de papelão de nossas sinas, ele vai tramando, retramando, nosso destino. Com as duas mãos ao mesmo tempo, desatento a tudo, mas atentíssimo na troca de tantos bilros emparelhados para trançar e arrematar na renda de filigrana os nós do destino de cada bilro. Sem deixar nunca nenhum largado, esquecido. O que parece mais a toa, deslembrado, está ali esperando, atado, seguro no seu nó, a hora de cumprir sua sina. Chegada a vez, atende prontamente: dá linha de seu novelinho para a trança requerida pelo Rendeiro e aceita, quieto, o laço para esperar outra vez a chamada do destino”. Parece este brasileiro muito religioso? Nada. É um verdadeiro errante. Página 323 “Eu, coitado de mim, sem fé nem santidade, me vejo morto é como uma alma danada, perdida, fantasmal” Acabou coronel de fazenda pelo rumo do Brasil central que tomou, mas poderia ser qualquer outro destino dentro do imenso Brasil. Desgostoso consigo mesmo, cheio de pensamentos desencontrados, procura se refazer, mas tem mesmo é que cumprir consigo.Órfão a cada mudança, constantemente só queria distância de si mesmo. Página 291 “não tenho queixa nenhuma não... sempre vivi só...não sobrou nenhum para ser amigo válido... hoje, pensando nisso, vendo que não tive nem tenho nenhum cristão ao meu redor pra me dengar, me veio a idéia que eu nem fui parido de mulher, fui fundado. É verdade, isto parece que sou, seu padre, descobri agora: fundado. E o fundador sou eu mesmo... meu pai sou eu... minha mãe também...hoje é meu dia de melancolia...” Mais pérolas, página 304 “ Donde sou? Não sou de lugar nenhum. Nem sou de ninguém. Eu sou é eu e sou só meu”. Página 321: “Por que me chamam de mulo e não de manga-larga, por exemplo? Esse sim, eu merecia, é nome glorioso de cavalo garanhão, puro sangue... sou mesmo é mulo... sou de raça misturada, híbrida... sou mulo é só no nome, um mulo mofino, de ponta de rama, estéril como todo mulo: sem poder de transmitir outros minha semente. Triste vigor, esse dos mulos. Fechado em si mesmo. Estanque”. Essa declaração, de onde subtrai as palavras, digamos, mais pesadas, mostra o autor como ele sempre viveu: fechado em si mesmo. E ele conclui que o êxito que teve na vida foi o de dar os mil passos todos, um depois do outro, concatenados para ser ele mesmo, melhorando sempre, sem retrocesso. Se o leitor agüentar os relatos minuciosos da desregrada vida sexual e amorosa do velho relator, terá uma obra muito rica em suas mãos. Vejamos página 341 “Comi a vida. Agora, rumino meus recordos de curraleiro, carreiro, soldado, muleiro, tropeiro, fazendeiro. Tudo isso fui. Hoje pastoreio essa fazenda da memória. Vivo, me desvivendo na busca de meus idos, sidos, tidos...” E uma auto-análise psicológica do homem brasileiro interiorano fruto de sua realidade que se destaca de modo geral na obra de Darcy Ribeiro. Página 386 “tudo vai bem no mundo, e vai bem comigo. Mas estou afundado, outra vez, na vil tristeza.
Laise
 

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