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porque bem sabem que os philosophos da antiguidade ciavam por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor lh'as não tiravam. E esta philosophia, hoje então... (6)

Pois o medico não morreu, nem sequer desmedrou ou levou /? significativo de preoccupação do animo insensivel ás amenidades da therapeutica.

A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinaria que seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma carta do doutor Domingos Botelho. Um periodo d'esta carta dizia assim:

«Déste-me noticia d'uma filha que eu não co«nhecia, nem reconheço. A mãe d'esta senhora está

(6) «Hoje então!...» Vou-lhes contar um lance memorando d'um philosopbo da actualidade, lance unico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa. Hoje (21 de Setembro de 1861| estava eu no escriptorio do illustre advogado Joaquim Marcellino de Mattos, e um cliente entrou contando o seguinte: — «Senhor doutor, eu sou um logista da rua de ••*; e fui roubado em oitocentos mil reis por minha mulher, que fugiu com um amante para Vianna. Venho saber se posso querellar, e receber o meu dinheiro.» — rode querellar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor quer querellar por adulterio? — Responde o queixoso: «O que eu quero é o meu dinheiro.»— Mas, redargue o consultor, o senhor pode querellar de ambos, d'ella por adultera, e d'elle como receptador do furto. — «E receberei o meu dinheiro ? — Conforme. Eu sei cá se elle tem o seu dinheiro?!

«no Fayal para onde ella vae. Cuida tu, ou manda «cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega «alli alguem de correr com a passagem d'eUa para «os Açores no primeiro navio. A mim me darás «conta das despezas. Meu filho Manoel teve ao me«nos a virtude de não matar ninguem para se con«stituir amante. De modo como correm os tempos, «muito virtuoso é o rapaz que não mata o marido «da mulher que ama. Vê se consegues do general, «que está ahi, perdão para o rapaz que é desertor «de cavallaria seis, e me consta que está escon«dido em casa d'um parente. Em quanto a Simão, & creio que não é possivel salval-o do degredo tem«porario... É uma lança em Africa livral-o da for« ca. Em Lisboa movem-se grandes potencias contra «o desgraçado, e eu estou mal-visto do intendente «geral por abandonar o logar... etc.»

O que sei éque não pôde pronuncial-a a ella como ladra.—«Mas os meus oitocentos mil reis ? I»—Ahl o senhor não se lhe dá que sua mulher fuja e não volte ? — Não, senhor doutor, que a leve o diabo; o que eu quero é o meu dinheiro.»—Pois querelle d'ambos e veremos depois.—«Mas não é certo receber eu o meu dinheiro?!»—Certo não é; veremos se depois de pronunciado as authoridades administrativas capturam o ladrão com o sen dinheiro.—«E se elle o não tiver já ?» — redargue o marido consternado. — Se o não tiver já, o senhor vinga-se na querella por adulterio.—«E gasta-se alguma coisa?»—Gasta, sim; mas vinga-se.—«O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor; a mulher deixal-a ir, que tem cincoenta annos.»—Cincoenta annos! — acudiu o doutor —o senhor está vingado do amante. Vá para casa, deixe-se de querellas, que o mais desgraçado é elle.

Partiu para Lisboa a açoriana, e d'alli para a sua terra, e para o abrigo de sua mãe, que a julgara morta, e lhe deu annos de vida, se não ditosa, socegada e desilludida de chimeras.

Manoel Botelho, obtido o perdão pela preponderancia do corregedor do crime, mudou de regimento para Lisboa, e ahi permaneceu até que, fallecido seu pae, pediu a baixa e voltou á provincia. XVII

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João da Cruz, no dia 4 de Agosto de 1805, sentou-se á mesa com triste aspecto e nenhum appetite do almoço.

— Não comes, João?—disse-lhe a cunhada

— Não passa d'aqui o bocado—respondeu elle, pondo o dedo nos gorgomilos.

— Que tens tu?

— Tenho saudades da rapariga... Dava agora tudo quanto tenho para a vêr aqui ao pé de mim com aquelles olhos que pareciam ir direitos aos desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraças da minha vida, que m'a fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para sempre!... Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não vinha a ficar em obrigação ao corregedor, e não se me dava que o filho vivesse ou morresse...

— Mas se tens saudades — atalhou a senhora Josefa — manda buscar a rapariga, tem-la cá algum tempo, e torna depois para onde ao senhor Simão.

— Isso não é d'homem que põe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ella lhe falta, morre de pasmo dentro d'aquelles ferros. Isto é venêta que me deu hoje... Sabes que mais? Leve a breca o dinheiro: ámanhan vou ao Porto.

— Pois isso é o que tu deves fazer.

— Está dito. Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anneis e fiquem os dedos. Por ora tem-se resistido a tudo com o meu braço. A rapariga, se ficar com menos, lá se avenha. Assim o quer, assim o tenha.

Reanimou-se a phisionomia do mestre ferrador, e como que os impeços da garganta se iam removendo á medida que planisava a sua ida ao Porto.

Acabára de almoçar, e ficára scismatico, encostado á mesa do escano.

— Ainda estás malucando?! — tornou Josefa.

— Parece coisa do demonio, mulher!... A rapariga estará doente ou morta?

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